Crimes de Maio completam 20 anos em São Paulo
Há 20 anos, em uma sexta-feira do dia 12 de maio de 2006, São Paulo começava a viver uma das páginas mais sangrentas de sua história. Véspera do Dia das Mães, líderes da maior facção criminosa do país comandaram diversas rebeliões pelos presídios do estado. O motivo foi a transferência dos "cabeças" do crime organizado. Entre os presos estava Marcos Willian Herbas Camacho, o Marcola, líder máximo da facção.

Assim que foi ordenada a transferência, começaram as rebeliões em dezenas de penitenciárias de todo o estado de São Paulo. Mas, naquela noite, a violência pulou os muros dos presídios. Os líderes da facção ordenaram ataques a policiais, delegacias, prédios públicos e instituições financeiras. Todos viraram alvos do PCC.
O jornalista e escritor Josmar Jozino, que na época era repórter do Jornal da Tarde, do Grupo Estado, conta como ficou sabendo dos ataques. Josmar é um dos principais repórteres que cobre segurança pública no país e é o primeiro jornalista a divulgar o estatuto do PCC no meio da década de 90.
"Um dia antes do início dos ataques de maio, mulheres de presos me ligaram dizendo que perderam o contato com os maridos. Elas falavam com eles por meio de telefone celular, o que era terminantemente proibido no sistema prisional, mas um fato que sempre aconteceu."
A onda de ataques foi sangrenta. Foram executados aleatoriamente pelos criminosos do PCC 59 agentes de segurança do estado. Quem estava de farda, levava tiro. Em resposta às mortes, mais sangue. Policiais do estado promoveram um massacre por nove dias seguidos. Mais de 500 civis foram executados.
Os Crimes de Maio foram marcados por uma violência brutal dos dois lados. A cidade de São Paulo literalmente parou. Josmar Jozino lembra como a cidade ficou deserta nos dias seguintes aos ataques:
"A onda de ataques foi assustadora mesmo e pegou as autoridades de surpresa. São Paulo parou assim naquela semana de maio. Escolas suspenderam aulas. A Avenida Paulista, o cartão postal de São Paulo, parecia um lugar fantasma, né? Houve toque de recolher. O PCC matou 59 agentes públicos."
O jornalista confirma que foi a transferência das lideranças da facção que motivou a rebelião e a onda de ataques:
"Foram motivados porque o governo isolou na Penitenciária de Presidente Venceslau II, 765 presos considerados líderes do PCC. Esse isolamento aconteceu na véspera do Dia das Mães, que é uma data sagrada para a população carcerária."
Ao todo, os ataques ocorridos entre os dias 12 e 21 de maio de 2006 e promovidos tanto por agentes do estado quanto por integrantes do PCC deixaram um saldo de 564 mortos e 110 feridos. Segundo o relatório "São Paulo sob Achaque", em pelo menos 122 dessas mortes houve indícios de execução com a participação de policiais.
Para o advogado Gabriel Carvalho Sampaio, diretor de uma organização de direitos humanos, o que aconteceu naqueles dias de maio de 2006 tem nome: foi um verdadeiro massacre:
"Foi um massacre, alguns vão chamar de chacina, mas o fato é que é um dos maiores crimes do Estado brasileiro, não é? Uma situação injustificada, uma reação injustificada a um episódio de segurança pública que vitimou mais de 500 pessoas, né? Mais de 500 civis. Mortes que ceifaram famílias, mortes marcadas pela estratégia da execução sumária."
Duas décadas depois, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, por sua vez, não informou quantos agentes morreram naquele período, mas declarou que as mortes ocorridas em maio de 2006 foram investigadas pela Polícia Civil e pela Corregedoria da Polícia Militar e que foram acompanhadas tanto pelo Ministério Público quanto pela Justiça.
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