Série Trabalho Escravo Doméstico: conheça a história de Maria Santiago
"Eu fui ficando, fui ficando, fui ficando. Nunca mais saí de lá. Nunca trabalhei em outro lugar. Só trabalhei lá desde quando eu vim. Acho que ela só me pagou uns três meses. Depois que fui acostumando, acostumando... Não me pagou mais.”
O depoimento é de Maria Santiago, de 78 anos. Ela saiu de Belo Horizonte aos 17, em busca de trabalho no Rio de Janeiro— e passou décadas na mesma casa. Foi resgatada de trabalho análogo ao de escravo, aos 75 anos de idade.
“No começo era ótimo. Maravilhoso. depois... ficou tudo ruim.”
O Auditor Fiscal do Trabalho, Maurício Krepsky, fala sobre a complexidade do trabalho doméstico e a relação das vítimas com os exploradores:
“Isso é uma atividade que tem um envolvimento muito grande com a vítima, que exige da auditoria fiscal não só conhecer o direito do trabalho, mas também ter a empatia de entender a outra vítima, entender aquela situação, e às vezes até entender o porquê que ela não quer falar, porquê que ela idolatra tanto o seu explorador, como que consegue mostrar uma situação de que ela é detentora de direitos e que aquela situação não está correta”, diz.
Maria relata o medo vivido após o resgate — e confessa que, no início, desejou voltar para a casa dos seus ex-patrões:
"Quando eu saí de lá, eu fiquei com medo, né? Porque, eu vou para onde? Aí fui parar em um abrigo horroroso. Depois, a gente vai acostumando, né? eles não deixaram eu voltar mais. A senhora chegou a querer voltar para lá? É? Quando eu estava no abrigo, queria.”
O Defensor Público Juliano Godoy aponta uma lacuna: a falta de políticas públicas pós-resgate:
“O Estado deve também desenvolver políticas públicas para receber essas pessoas num momento pós-resgate, para que tenham uma vida digna, para que continuem sendo úteis, para que continuem produzindo, se quiser, para que continuem vivendo na sociedade como uma pessoa que tenha os seus direitos respeitados", aponta.
LOC: Leonardo Sakamoto, diretor da ONG Repórter Brasil, comenta a polêmica em torno da equiparação de direitos das trabalhadoras domésticas. E acrescenta: essa resistência reflete uma herança da escravidão.
“Vamos lembrar que tem duas décadas que rolou a discussão de equiparação de direitos com a PEC das Domésticas, com a equiparação das domésticas com o restante dos trabalhadores. E a classe média brasileira chiou. Falou: como é que eu vou ter minha doméstica? Tão incorporado que estava a senzala dentro da casa das pessoas", afirma.
Resgatada há 3 anos, hoje Maria gosta de ir aos jogos do Botafogo, seu time do coração. Já visitou o vestuário e ganhou autógrafos dos jogadores.
"Como é que a senhora se sente hoje? Feliz, feliz da vida!"
E se você souber de situações de trabalho escravo, comunique pelo Disque 100. Na próxima reportagem, a história de Maria Raimunda, que além de ser escravizada, ainda sofreu outros tipos de violações.
*Com Colaboração de Ana Graziela Aguiar e Ana Passos, produção de Claiton Miranda e Patrícia Araujo e sonoplastia de Egbert Martins
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